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Clique e ouça faixas de toda a carreira de Zé Eduardo Nazario, entre trabalho solo, projetos coletivos e participações
Depoimento de Pedro Mendes
INTRODUÇÃO

Conheci o José Eduardo Pinto Nazario, mais conhecido por Zé Eduardo Nazario ou apenas Zé Nazario, em 1995. Eu morava no bairro Alto de Pinheiros, em São Paulo e procurava um professor de bateria e percussão nas redondezas, pois tinha aulas na escola de Duda Neves, mas ficava um tanto quanto fora de mão para mim (era um trajeto de aproximadamente 15 kms) e numa dada tarde adentrei à loja P. A. e me deparei com o Marcelo Domingos, mais conhecido hoje como Domingos ou Drum, hoje  proprietário da Batucadas1000, à época um funcionário dessa mesma P. A., para quem pedi conselhos sobre professores de bateria e percussão na região e ele, sem titubear, emendou: "Aqui na própria Tedoro Sampaio (famosa rua de São Paulo conhecida como 'Rua dos músicos') tem um professor que é 'o cara': Zé Nazario". E me deu o endereço e telefone.

Telefonei para o Zé e em pouco tempo estava lá para minha primeira aula. Ali na pitoresca e calma Vila Cândida, uma pequena vila de pequenas casas antigas, sobrados geminados uns aos outros, cheguei à bela casa, mais ou menos no meio da vila e descendo uma estreita escada, chegamos ao estúdio, no porão da casa, sobre o qual vim a saber depois a respeito de tantas antológicas histórias, encontros e feitos realizados e desenvolvidos ali naquele pequeno espaço.

Em poucos segundos o Zé vira pra mim e diz : 'Toca'. Bom, fiz aquele arroz com feijão limitadíssimo que eu sabia e ele, após alguns segundos, me pediu para parar e disse apenas: 'Olha, no futebol o jogador que quer se desenvolver e realmente se tornar um bom jogador, ele tem que saber todos os fundamentos do esporte, tem que saber cabecear, bater direito na bola, não pode esquecer o abdominal ... Na bateria e na música não é diferente. Os fundamentos são chamados rudimentos e assim por diante...' - e claro falou um tanto mais. Logo de cara essa abordagem, aparentemente 'simples', mas já muito inteligente, com tom leve, atento,  já me marcou pela sabedoria, pela maneira e leveza com as quais o Zé conduziu tudo logo na primeira aula e a maneira como aquilo 'grudou' na minha mente me marcaram; havia no ar um clima realmente diferente, o qual eu 'farejei' muito bem, mesmo com minha certa inocência.

Muitos anos de convivência se passaram desde então e  após tudo isso, como aluno e observador em uma mais de centena (e não é apenas força de expressão não, estive real e fisicamente presente em bem mais de uma centena de eventos nos quais o Zé tocou e/ou lecionou) de shows e eventos onde vi o Zé nas mais diversas situações musicais e um tanto depois como grandes amigos que viríamos a ser, descobri que o Zé antes de tudo é extremamente sensível, muito humano, no sentido mais profundo que podemos dar e entender,dedicado, atentíssimo, professor já há muito merecedor do título de mestre (ou, como é propagado, 'professor dos professores '), grande profissional e músico; e tudo o mais que posso dizer, contar e descrever estará nos textos a seguir onde procurei separar (apesar de ser dificílimo tal feito) o Zé professor do Zé músico atuante, do divulgador e resgatador da música brasileira e do jazz (e de muitas outras – mas, principalmente essas) e  de tantas facetas e fatos que ele, com sua excelente memória, faz questão de sempre lembrar, fatos por muitos esquecidos e/ou não citados/lembrados da nossa música brasileira, do jazz das épocas douradas e todas as facetas que conheço desse nosso agora mais do que merecedor de uma nobre página na Internet, o Mestre ZEN.

O mais importante a dizer é que o Zé Nazario consegue, naturalmente, fazer todo esse casamento entre a faceta humana explícita, exacerbada, nada contida muitas vezes e a faceta do músico seríssimo, compenetrado, com memória gigante transparecer quando toca e quando fala, mesmo que em ambas as situações o tom de seu enfoque seja tão diferente em termos de energia e intensidade. O Zé é extremamente calmo na esmagadora maioria das vezes quando conversa (característica essa sempre presente na grande maioria dos músicos que são realmente grandes – e que não 'se dizem' grandes ou são tidos por tal por uma parcela de pessoas que não conhece uma gama tão grande de artistas da música a ponto de julgar, comparar e elegê-los como tal), talvez até sendo esse um dos motivos pelos quais ele as vezes é denominado ZEN (talvez pela sua altíssima dose e capacidade de concentração também).

Quando toca, sabe, como pouquíssimos, ser intenso desde a menor intensidade de dinâmica na música e o mais baixo volume, até o explodir mais visceral, passando pelos intermédios todos imagináveis, com total domínio. E quando explode... é a  ocasião na qual ele realmente chama a atenção daqueles que talvez inconscientemente perceberam (sentiram) aquele 'crescer' vindo das mais baixas intensidades, com maestria, que culmina numa explosão indescritível! Ouvintes atentos percebem essa intensidade toda, esse gradiente de intensidades e como ele está conectado espiritualmente (já num estado que transcende a técnica musical – pois essa o Zé já lapidou há muito tempo) às situações musicais nas quais ele está envolvido.

E digo mais: tanto esses músicos acostumados a isso que estejam tocando com ele, como músicos na platéia conhecedores e entendedores daquilo tudo que está se passando musicalmente, da 'conversa' que ali acontece e até mais aprofundadamente falando, seja em quais situações musicais forem, quanto o público mais assim digamos 'leigo' (nem por isso menos sensível) percebem e esboçam as mesmíssimas reações após essas 'explosões' tão comuns em algumas apresentações ao vivo do Zé : a maioria simplesmente precisa expressar, pôr pra fora e acabam expressando, externalizando todos esses sentimentos como surpresa, emoção forte, altas doses de energia, adrenalina, espiritualidade, envolvimento, quando o Zé cria essas situações. E isso ficou sempre muito claro e explícito pra mim sempre, pois observei, por mais de 10 anos já, os rostos do público e músicos nas mais imagináveis e distintas situações em que o Zé esteve tocando e, claro, eu também estava ali! Em excelentes ângulos, capaz de ver os outros músicos, o Zé e o público.

Quem já viu o Zé em ação ou já tocou com ele, sabe do que falo. E eu já vi; e olha, não foram poucas vezes não! Quem foi ou é aluno também sabe e quem o conhece como amigo também sabe dessas diversas características do Zé Nazario. Agradeço sempre por poder ter tido essas tantas oportunidades nesses 13 anos.

Descrevo a seguir situações as quais me recordo com grande clareza, emoção, saudade, onde irei descrever o Zé Nazario e suas facetas.

O BATERISTA E MÚSICO

Analiso e descrevo primeiramente o músico e as impressões causadas por Zé Nazario para depois discorrer sobre minhas impressões acerca desse ZEN baterista, em termos especificamente baterísticos

O que faz um baterista ser considerado bom e, mais além, excelente? E por fim, mais além ainda, especial dentre os excelentes? Aquele com algo mais ou... muitas coisas a mais. Excelência no domínio rítmico, na técnica?Saber criar, improvisar, saber encaixar-se/adaptar-se as mais diversas situações musicais e/ou também ser especialista em uma ou poucas linguagens musicais com total maestria e domínio? Ser musical sabendo respeitar os músicos com quem toca e a música,preenchendo espaços com respeito mas ao mesmo tempo impondo-se nos momentos certos, destacando-se onde há total espaço para isso? Destacar-se, chamar atenção também pelo seu 'algo mais' em situaçãoes onde existe uma democracia total, por exemplo na música improvisada e no jazz, seja jazz puramente dito, aquela 'forma' mais conhecida,seja o nosso samba jazz, seja o jazz mais moderno, seja o free, onde o músico realmente tem que e pode mostrar todas suas cartas na manga?

Muitas vezes esse 'algo mais' é explicado de diversas maneiras ('feeling', 'energia', 'espiritualidade'), conceitos esses nem sempre fisicamente 'palpáveis' e fáceis de serem traduzidos a fim de que a maioria dos leitores realmente percebam com quase totalidade aquilo que quero transmitir, mas que, de uma forma ou de outra, fazem parte de um rol de opiniões em comum que acabam por expressar a admiração por um músico. Muitas vezes (sendo mais o caso das análises e 'sensações' dos músicos e/ou de ouvintes que desenvolvem seus ouvidos perceptivos a níveis mais profundos e 'completos') isso é explicado através de termos como 'técnica', 'musicalidade', 'poder de expressão', 'frases', 'pegada' etc... . São teoricamente mais palpáveis ou perceptíveis, mas continuam sendo também relativos e não exatos a todos leitores, ouvintes e admiradores. E graças a Deus, que ótimo que tudo isso sempre passeie pela campo da inexatidão, estamos falando de arte; estamos falando de arte suprema!

Então, o que acaba muitas vezes sendo mais comum a ambos os grupos é o feeling, a intensidade, a energia, onde nem sempre apenas a técnica e musicalidade acabam por traduzir e alcançar níveis altos de sensações não tão palpáveis/explicáveis. Mas onde claro a técnica de um músico como Zé Nazario acaba realmente sendo um meio, um caminho naturalíssimo pelo qual tudo aquilo que ele possui internamente para se expressar acaba realmente sendo expressado. E como!

Observei, em situações ao vivo, o Zé Nazario em tantas ocasiões, tanto em termos numéricos (já contei mais de uma centena de ocasiões nas quais estive presente) como em termos de diversidade entre elas que perdi a conta. Já o assisti tocando tabla em duo com seu irmão aos teclados como já o assisti com orquestra sinfônica em peças complicadíssimas modernas na bateria(1996 com as peças 'Aurora' e 'Limite' no Memorial da América Latina) e claro vi em diversas ocasiões a famosa 'Barraca de percussão' que ele introduziu no Brasil nos anos 70 com Hermeto Pascoal (hoje tão utilizada – e muitas vezes eleita como inovadora... o que nos faz rir após sabermos sobre o quão antes essa idéia já havia sido mostrada – mas isso é comum em se tratando do Zé e em se tratando de tanta coisa na música brasileira e na mundial também, onde o que é eleito como novo só o é por ter sido feito por pessoas com pouco e nada profundo conhecimento sobre o passado da nossa música e da música mundial).

Continuando por onde vinha... já o vi tocando bossa nova e samba jazz e jazz mais puramente falando em trios, quartetos, quintetos, sextetos e em big bands com músicos dos mais diversos níveis, origens, formações, onde vi o repertório mais variado possível, indo de temas de Luiz Eça e Tom Jobim, Johnny Alf, Durval Ferreira, Maurício Einhorn a John Mc Laughlin, Coltrane e Wayne Shorter, Lelo Nazario e tantos outros, onde o repertório era tanto tocado de primeira, sem ensaio, com muito improviso, como também, de certa forma, ensaiado e outras vezes muito ensaiado (e nisso, só nesses tipos de situações, me lembro de grupos com tantos músicos que com certeza vou me esquecer de alguns: Zerró Santos, Itamar Collaço, Victor e Daniel Alcântara, Felipe Ávila, Lelo Nazario, John Stein, Frank Herszberg, Martha Karassawa, Rubinho Antunes, André Juarez, Mané Silveira, Nenê, Vinícius Dorin, Chico Oliveira, Teco Cardoso, Marlui Miranda, Maurício de Souza, Bocato), como já o vi em muitas outras situações, como com o Pau Brasil por volta de 1995 e 96 no Sesc Pompéia, que tem um trabalho de sonoridade extremamente peculiar, bastante trabalhado previamente, totalmente diferente das outras situações citadas tanto em concepção como e sonoridade e formação. E claro, não posso esquecer das situações onde vi seu trabalho de composições e arranjos totalmente próprios e super modernos, o Percussônica (o qual vi no Zildjian Day de 1998 e no Sesc Vila Mariana), formado em 1998, onde o Zé mostra toda sua veia de arranjador e de músico capaz de adaptar-se com maestria às mais diversas situações. Essas performances memoráveis se deram em 1998, sendo uma a  memorável apresentação no Zildjian Day em São Paulo onde no mesmo dia o fechamento foi com Trilok Gurtu e me lembro bem que na apresentação do Percussônica (que no dia foi chamado de 'Os Tri-Loucos') a energia foi contagiante, algo muito forte vivenciado pelos presentes e a outra durante o festival Percussões do Brasil, onde bateristas/percussionistas como o próprio Zé Nazario, Nenê, Naná Vasconcelos, Guello e Airto Moreira lecionaram por 1 semana e apresentaram seus mais recentes projetos musicais. Participei de quase todos workshops e além das memoráveis lições e aulas de Nenê e Airto, como o enfoque aqui é o Zé, fiquei particularmente tocado pela maneira como ele homegeou os bateristas brasileiros e traçou toda a história da bateria brasileira, mas isso é história pra outro capítulo aqui do site.

Em todas essas situações estive em posição privilegiada. Primeiro porque cheguei cedo a maioria dos eventos e por fim porque procurei ficar o mais perto que pude da bateria, como na época do inesquecível grupo Os Cinco, grupo esse  que atuou por quase 2 anos num pequeno mas aconchegante bar no bairro Ipiranga, em São Paulo. E nas pitorescas e memoráveis histórias de tantas sextas a noite, onde estive presente a mais de 95 % das ocasiões (se faltei a 5 gigs em 2 anos foi muito). Eu chegava sempre as 9 e pouco da noite (e só ia embora depois de 2, 3 da manhã) e me sentava a cerca de 1 metro do chimbal do kit Pearl branco que o Zé tanto 'massacrou' por lá, de propriedade do seu Evaldo e aí é que comecei a notar essa característca tão comum tanto à músicos ouvintes entenderores do que se passava como do público mais 'leigo', que a impressão que o Zé causava e passava é que ficam como pontos comuns a esses dois grupos distintos de ouvintes, onde podemos discorrer linhas e linhas, mas que sempre acabarão nas palavras: energia e espitirualidade. A presença de público tão distinto (músicos e não músicos) que se alternavam semanalmente me ajudou também nessa conclusão.

A energia era tamanha que a cada intervalo o 'seu' Evaldo, proprietário do bar (e da bateria – o Zé levava os pratos e a caixa), pegava o microfone, como que um Max Gordon (proprietário do antológico Village Vanguard de Nova Iorque) brasileiro e tentava jogar um fôlego em todos presentes após alguns 'massacres' musicais,apelidando os músicos, dizendo 'Felipe, the Ice maaaaaaaaaaaaaaaaannnnnnnnnnn! ' (era o guitarrista Felipe Ávila) ou então 'Daniel, lábios de mel' (o trumpetista Daniel Alcântara). E quando o 'seu' Evaldo chegava no Zé, não se contia: ' Bom, esse aqui... esse aqui podia ter nascido com o sobrenome Jones ou Smith ou sei lá o que... mas ele nasceu no Brasil... e com vocês... o TROGLODITA Nazarioooooooooooooooo!! '.

Era muito engraçado e tal reação apenas demonstrava o quanto a energia 'pra fora' e nada contida do Zé, sempre casada com extrema musicalidade e uso de todas as dinâmicas na música, impressionavam um ouvinte como 'seu' Evaldo. Claro que ele sabia que o Zé possui todas essas característcas e que de troglodita não tem nada, mas realmente os momentos que mais marcavam e com certeza estão nos imaginários tanto dos músicos e ouvintes como dos leigos até hoje são aqueles onde o Zé explodia e realmente se destacava. Sem nunca perder a precisão, a riqueza da execução, o respeito pelos músicos e pela música. É que simplesmente o Zé naturalmente se destacava. E assim sempre foi em todas as apresentações nas quais o assisti onde hove maiores ou menores brechas para que ele se destacasse.

Não é apenas uma questão da bateria ser alta em volume e projeção de som, mas não mesmo. Se fosse assim, Tony Williams ou Elvin ou Blakey não se destacariam, pois existem bateristas que tocam com mais pegada ainda do que esses (que já estão dentre os que tem as pegadas mais 'violentas' do jazz').  É primeiro uma questão de saber se adaptar a situação, saber solar contando uma história e depois de saber usar os volumes e dinâmica e possuir muitas cartas na manga, não apenas 'frases', mas muito mais, para construir um 'crescendo' até a explosão e a volta. Como disse, espiritualidade é algo muito forte no Zé quando ele toca. E isso meus caros, pra isso basta sensiblidade. Pra ambos os grupos de ouvintes.

BATERISTICAMENTE FALANDO

A análise aqui leva em conta as situações onde assisti ou ouvi Nazario, dentre as quais minha memória foi resgatando e depurando algumas coisas para que eu chegasse a uma descrição do Zé em relação as atuações onde o todo combinado foi extremamente grande, rico (não que sua atuação não o seja, sempre, mas dentre todas, existem aquelas nas quais a presença de músicos mais ao seu nivel ajudam a chama da coisa ficar sempre muito mais quente – é como um time de futebol, até dá pro Romário levar um time nas costas ou um Maradona, mas... nem sempre... ).

Nazario sempre foi impecável e exigente na escolha de seus tambores, pratos e acessórios em relação a cada ocasião musical distinta. Basta ouvir as gravações mais antigas para comprovar o que falo. E ele já se sentou na mais diversa gama de kits de todas marcas e combinações possíveis e sempre extrai o máximo de cada tambor. As gravações das quais ele participou, vídeos raros e áudios atestam também isso, além claro das situações ao vivo. Após tantos anos de batalha, o merecido começou a vir e em boas doses. Me lembro exatamente de quando ele, mais do que feliz da vida, rasgando um sorriso de lado a lado, ali no porão da antológica casa na Vila Cândida, em São Paulo, uma vila no meio da Rua Teodoro Sampaio, a pouquíssimos metros das lojas de música, me mostrou o primeiro kit Pearl que ganhou como endorsee da marca. Uma maravilhosa Master preta com aros folhados a ouro e a frente aquele belo rack que sustentava lindos pratos. Isso sem contar todo o resto... O ano era 1995 e eu acabara de começar a ter aulas com ele e o Zé acabara de entrar para o time da Pearl. Na época o Pau Brasil apresentava ao vivo seu mais recente trabalho, o Babel (Prêmio Sharp no Ano Milton Nascimento, numa também formação memorável, com Marlui Miranda, Teco Cardoso, Lelo Nazario e Rodolfo Stroeter) e não poderia haver melhor situação para ver um Master e sua Master. A acústica do Sesc, o kit, os músicos e essa obra. Há casamento mais perfeito?

Me lembro de ter ido sábado e domingo ao Sesc Pompéia ver esse show e fiquei estupefato com o som que Nazario extraía da bateria (já havia me surpreendido ao ouvir o 'Babel') ao vivo e como aquele grupo soava mágico, equilibrado, coeso, a música tão rica, espritualmente tão profunda, tão clara quanto às suas mensagens, sensações, universos por onde passeava (e passeia, pois aquilo está registrado!), que só ouvindo com atenção pra se descobrir.

Anos mais tarde o Zé entra pra Zildjian (1998), nada mais justo para alguém que tanto fez e faz em tantas esferas diferentes da música, seja na prática tocando, seja didaticamente, seja como divulgador e mantenedor do jazz, da música brasileira e da cultura brasileira (prefiro dizer Cultura a Folclore).

E, claro, porque estou dizendo tudo isso se o capítulo aqui trata do Zé como baterista? Porque um instrumento não 'fala' sozinho. E nas mãos do Zé, ele canta. Imaginem então quem faz qualquer kit soar bem, com os melhores tambores, acessórios e pratos?

Então, esse recém chegado kit, de médio para grande porte, digamos menor que o de um Billy Cobham, mas maior do que o de um Tony Williams quando a época de sua Gretsch amarela, era (e é) usado por Nazario em sua plenitude. Nada está ali por acaso, nem por ser visualmente belo (muitos bateristas tem 18 pratos, 16 zi-bells e mais 25 percussões em volta e as vezes em uma gig não usam nem metade). Depois vieram os kits na cor âmbar, um kit menor, de medidas menores também, ideal para tocar jazz e situações similares e um kit intermediário, o Verde Sparkle, não tão reduzido quanto o de cor âmbar nem tão grande quanto o de cor preta. Cada qual a sua hora e devidamente usados.

Analisar um baterista é difícil, pois toda e qualquer análise de um músico acaba sempre passando por sensações, experiências e sensibilidades pessoais. Alguns pontos podem ser analisados e expressos de maneira exata ; ou, ao menos, o mais próximo de uma exatidão. Alguns outros pontos nem sempre são tão exatos. Portanto procuro traçar minha visão sobre o Zé mesclando minha sensibilidade a uma análise mais técnica dele como baterista.

Começando pelos pratos e chimbau: o Zé colore as músicas usando os pratos de maneira muito melódica, explorando todo o potencial deles, especialmente em situações onde a música é bastante elaborada e deixa espaços para isso (como do Pau Brasil ou como quando toca com orquestras ou com seu Percussônica ou grupos similares). Tanto ele usa os pratos para fazê-los explodirem naqueles crescendos com pontas de baqueta ou nas bordas ou mesmo 'passeia' por eles com frases em rulos que ouvimos com clareza e percebemos como encaixam bem na música em vários sentidos, indo de lado a outro, como também nas conduções ele 'doma' o ride com extrema maestria, explorando todas as áreas e 'costurando' por ali as células mais complexas e rápidas possíveis. Seja tocando o mais feroz e sincopado bebop ou o samba jazz igualmente rápido, onde ele vem da escola Edison Machado (e ainda com mais modernidade e complexidade), vemos um caldeirão de influências que vão desde De Johnette com sua polirritmia e sobreposição de compassos e sua sincopa extremamente complexa, indo a Machado com suas 'colocadas' de bumbo e caixa e condução bem samba mesmo, passando por Tony com suas células infinitas no ride, indo também a outro estilo no jazz, de Art Blakey com sua elegância no ride, sua 'girada' de punho ao conduzir que tem total relação com a qualidade e 'redondeza' do som produzido.

Porém, tudo isso com uma voz já há muito totalmente sua, você ouve o Zé e sabe que é ele e ponto! Você 'sente' e reconhece sua pegada, sua respiração rítmica, seu sotaque tão próprio, suas frases e suas marcas registradas. Por exemplo quando ele toca um baião ele tem a sua maneira de tocar, que é diferente de um outro mestre brasileiro, por exemplo, o Nenê. Ouça o Zé tocando sua composição 'A xepa ' ou 'Flor do sul' ou 'Olho d´água' um baião lindo com Marlui Miranda (existem 2 versões: uma no disco de mesmo nome de 1978, de Marlui e outro no 'Babel', do Pau Brasil – particularmente prefiro a segunda).

E quando ele toca jazz, ele TOCA mesmo, totalmente na linguagem e com todas as nuances, sotaque e respiração rítmicas que pouquíssimos bateristas que não tenham nascido lá no meio do jazz mesmo  tem. Claro, o brasileiro já toca o jazz há um bom tempo e alguns tocam muito bem e a linguagem já se abrasileirou há muito. Só que tocar aquele jazz como o de lá, já que muitos aqui se propõe a isso, muitos 'tocam' (alguns praticamente apenas reproduzem, alguns, digamos, 'tocam ') . Mas a um nível além e com total domínio e na linguagem MESMO, é pra poucos. Muitos podem querer me crucificar, mas não tenho medo de afirmar que pouquíssimos bateristas brasileiros realmente TOCAM jazz, tal qual mesmo muitos não tocam bem o samba. Existem sutilezas e características na linguagem, execução, no 'drive' rítmico, naquela coisa de empurrar pra frente ou 'atrasar' e vários 'jeitinhos' que poucos prestam atenção, mas que são os fatores essenciais que diferenciam os músicos e que, claro, irão agradar ou não os ouvintes que são mais exigentes, pois sempre ouviram os mestres e há tempos, com atenção e paixão.

Voltemos ao kit da bateria... além desse uso do ride, sempre que sobram os buracos, Nazario usa também de maneira riquíssima o chimbal com os pés, abrindo e fechando das mais diversas maneiras e deixando soar sempre totalmente de acordo com os momentos da música, combinando e fazendo-os conversar com os tambores e outros pratos (exemplos: a gravação de Na Ozetti 'Só comigo', onde também vemos o trabalho do Zé com as vassouras ou como quando o Zé toca Valsa e Claridade de seu irmão Lelo). Quando o chimbal é usado para marcação do tempo, seja em todos tempos, seja como no jazz mais 'comum' onde vai a 2 e 4, aquele 'chic' que é a 'fechadinha' do chimbal soam muito redondos com o Zé, precisos no tempo mas sem ser um tempo 'preso', fica muito redondo. E quando é pra sincopar ou pra ser rápido ou mesmo a la Tony Williams novamente, marcando todos os tempos, ele também 'manda bala' ! E, meio que a la Tony novamente, mas com sua voz muito própria e fazendo isso em temas brasileiros também, quando ataca nos crashes está sempre montando melodias e alternando os tambores, o que dá mais um efeito mágico na música.

A irrepreensível técnica de caixa e frases infinitas nas mangas também dão a Nazario um poder de criação e de improviso ilimitados quando sola e ele passeia pelos tambores com tranqüilidade e criatividade. Todos sabem que existem diversas técnicas e maneiras de um solista desenvolver seu estilo nos tambores, ou melhor, pelo kit todo, mas ainda é a caixa grande parte do coração da coisa. Se você pedir, o Zé toca, de memória, dezenas e dezenas de solos de caixa, garanto! E com certeza esse é um dos caminhos que o ajudaram a chegar onde chegou como músico de uma maneira geral e como solista, aliando-se isso, claro, ao ouvido extremamente musical, ao cuidado na afinação e escolha dos tambores e o conhecimento de muitas melodias e de harmonia que o Zé tem.

Na bateria, seus solos sempre são sempre recheados de surpresas, frases bonitas e muito uso da dinâmica e o mais importante de tudo é que ele, tal qual os mestres do jazz, SEMPRE conta uma história própria, com todos os fundamentos, claro, mas à sua maneira. Sem se repetir. Sem também 'forçar' a surpresa. Nunca o vi repetir um solo nem mesmo usar clichês, seja solando livremente, seja em situações mais 'free jazz', seja quando toca os chorus completos ou os 'quatros'. E quando ele está tocando samba, o solo é em samba, quando é jazz, é jazz.  E é isso que diferencia um grande solista de um bom ou mediano solista. O uso das mais diversas técnicas da bateria aliado a vontade e capacidade de criações ilimitadas e o respeito a linguagem musical do momento que no final traduzam uma VOZ PRÓPRIA ao instrumento. O ouvinte mais atento e que escuta com atenção os mais diversos improvisadores percebe essas diferenças entre solistas que 'soam' mais ou menos como esse ou aquele e aqueles que tem estilo totalmente próprio. E percebe também que, se não ouvido com extrema atenção, um solo do Zé pode confundir a qualquer momento, tal qual um músico que não conheça a linguagem dos tambores (tal qual todos os bateristas do jazz conhecem e muito bem exatamente todos os caminhos que um solista está percorrendo, suas frases e idéias) pode 'rodar a baiana' mesmo. Quem ouviu ou tocou com o Zé em situações de improviso sabe do que falo. Se desligar um segundo sequer, uma fração, já era...

Outra característica importantíssima nessa música 'conversada' (seja ensaiada, seja tocada de primeira ao vivo) é saber se encaixar, ser econômico nos lugares 'certos', antecipar ou preencher o outro solista ou os espaços da música em si, ouvindo a melodia e ter tudo na manga e mais um pouco para que o principal,a figura central esteja bela: a música.

E ele encara qualquer situação e se destaca. Já o vi em furiosos free, em rapidíssimos bebops, em temas mais modernos, 'abertos', já o vi tocar samba em 3, em 5, peças e temas em 7 e até 19 tempos, improvisando com total tranqüilidade (ouça 'Dança das águas', do Percussônica) como já o vi tocar belamente vários temas lentos ('Ana Maria', 'Claridade' do Lelo), lentíssimos (por exemplo 'Blue in green ' com vassouras). O leitor irá se perguntar 'Bom, tocar Ana Maria, Blue in Green ou vários outros standards muita gente toca... e daí? ' E daí que, bom... vá assistir. Depois me responde. E claro, quando aquele samba ou bossa começam, ali está o Zé de novo, totalmente em casa, conhecedor total desse suingue pois o respirou e muito, como o ar do dia a dia por toda sua vida até aqui. E ouviu MESMO e conviveu com gente como Édison Machado, Tenório Jr (com quem também tocou) e muitos outros. É interessante notar que ele é um dos primeiros que começaram a usar toda a formação/escola do que conhecemos por samba jazz, com uma linguagem mais moderna ainda da música (ouvindo o Grupo Um ou mesmo nas gigs ou em tantas outras situações percebemos isso) e, claro, com a linguagem da bateria também com igual importância.

Já o vi também com orquestras modernas onde sua leitura é também impecável (um fato curioso que me lembro – não foi uma orquestra moderna, mas é bom exemplo para ilustrar o que falo sobre a leitura - foi quando ele fez uma subs para o baterista Oscar Bolão num teatro no Bexiga em uma peça que contava a história da cantora Dolores Duran – o Zé leu tudo de prima muito bem e depois que foi embora do palco fiquei esperando ele pra ir embora, ele no camarim e ouvi os comentários dos músicos que ainda estavam no palco, impressionados com a atuação e domínio que ele teve 'de prima' do repertório, onde não foi apenas 'ler', mas sim ler tocando e encaixando coisas novas). Voltando as orquestras modernas, não é também pra qualquer um inserir a bateria de maneira igualmente importante, 'falante' num universo erudito, mesmo que seja esse universo composto por músicos e ouvintes mais acostumados a sonoridade da bateria com destaque, dentro dos mais modernos contextos da música. Isso ficou para mim comprovado no Memorial da América Latina, em 1996, com as peças 'Aurora '  e 'Limite' do Lelo Nazario, seu irmão.

Como se não bastasse tudo isso, me esqueço de falar mais sobre o uso dos ritmos brasileiros como samba, maracatu, baião e outros, que aliás são também marcas registradíssimas do Zé, onde, primeiro e mais importante de tudo, suinga como ninguém, brasileiríssimo e respira ritmicamente de maneira muito sua, muito própria (e isso é impossível de se traduzir em palavras se você não for vê-lo ao vivo ou ouvir seus discos) e onde também ele inova, ao introduzir novas combinações e possibilidades na bateria para esses ritmos (ritmos esses que não são explorados dessa maneira nos universos mais tradicionais onde são tocados), SEM DEIXAR de manter a sonoridade original dos mesmos, ou melhor, sem descaracterizá-los ou banalizá-los (o que infelizmente ocorre e muito nas músicas ditas 'experimentais' ou que 'fundem' estilos) e com muito respeito. Muitas vezes o que ele criou é, a princípio, 'simples' na execução de alguns ritmos, mas ele criou, correto? E existe também o criar, com conhecimento, com base sólida. Porque usar tais ritmos muitos usam, mas saber o que são na fonte, ouvir a tradição e depois usar bem usado na música mais moderna e fazer isso soar muito bem,também não é fácil. É como as línguas: cada uma é tão grande em si só que pra dizermos que criamos um novo idioma temos que ter um curso completo em cada uma das quais desejamos misturar. Do contrário, ao bom ouvinte, soa despropositado, mal misturado, sem sentido, banal, soa magro' e, invariavelmente, ou não sobrevive por muito tempo ou é algo admirado por uma parcela de pessoas que vira e mexe elegem algo como inovador sem saber e conhecer realmente e a fundo o que já tanto aconteceu e foi criado lá atrás.

Tudo isso vem tanto da sua formação onde praticou um bocado no instrumento, foram anos e anos de muitas horas por dia, aliados a muitas gigs e todo tipo de experiência e, claro, onde ele também pesquisou muito e conhece como ninguém todos os caminhos do instrumento. O que vem da sua natureza de explorador musical de novas possibilidades e do conhecimento profundo desses ritmos, estilos musicais em seus âmbitos tradicionais, da bateria como um todo, sua história no Brasil e no mundo e um bocado mais.  Também, pudera, isso já é de sua natureza e, imaginem, aliando isso a escola Hermeto Pascoal (da qual Zé fez parte no início/metade dos anos 70) e todas suas influências e experiência, o resultado desse caldeirão riquíssimo veio a ser Zé Eduardo Nazario.

O que mais falar sobre o Zé a bateria? Muita coisa ainda poderia ser dita, mas, vá ouvi-lo!

Ah sim... eu acabei nem citando sobre o Zé ser um mestre no berimbau, ter um método nunca lançado riquíssimo sobre toques tradicionais do instrumento, sobre tocar muito bem pandeiro e muitas outras coisas e sobre ter um domínio especial também sobre a tabla indiana e sobre o caxixi, onde ele é capaz e fazer muita coisa e tem também um método de exercícios riquíssimo escrito, mas nunca lançado. São muitas cartas na manga!
HISTÓRICO E RECONHECIMENTO

Zé Nazario e seu grande histórico já registrado e testemunhado de shows/gravações/aparições, aulas, cursos e o que mais pudermos citar sobre sua vida PRÁTICA na música por já mais de 40 riquíssimos e ininterruptos anos atestam que ele preenche todos os requisitos para que seu reconhecimento seja incontestável. Ele fez muito pela bateria e música brasileira e recentemente recebeu da Universidade Federal da Bahia o título de 'Notório Saber', onde uma banca de músicos/professores do mais alto nível foram unânimes e concederam ao nosso Zé tal título.

O Zé vai muito além ainda, sendo uma figura realmente diferenciada, ímpar, especial e iluminada com muitos 'algos a mais' dentre tantos bons e excelentes bateristas e músicos no mundo.  Não tenho medo de colocar Zé Nazario no mais alto topo,no mesmo patamar de músicos brasileiros bateristas como Édison Machado, Dom Um Romão, Hélcio Milito, como o coloco no mesmo patamar de Tony Williams, Elvin Jones, Max Roach dentre os mais reconhecidos e conhecidos do mundo.

O leitor menos conhecedor do trabalho e potencial do Zé a fundo pode questionar-se sobre o peso de tais afirmaçãoes e,claro, o que Elvin, Tony e Max e Édison e Dom Um fizeram pelo instrumento e pela música moderna é algo muito grande, impossível de ser exatamente medido a exatidão. Foram feitos não apenas grandes, inovadores e quantitativamente numerosos em se tratando de gravações, performances e do quanto influenciaram, influenciam e influenciarão gerações e gerações com suas criações e personalidades tão peculiares, tudo isso expresso pela quantidade de registros e oportunidades que conseguiram e obtiveram. Mas, tal qual nosso grande Édison Machado foi muito menos registrado e reconhecido do que deveria e mereceria, mesmo hoje sabendo-se e tendo-se 'certo' acesso à algumas de suas obras, das mais famosas à mais obscuras, Zé Nazario, apesar de ter participado de uma boa quantidade de gravações e momentos extremamente importantes da música brasileira e mundial, indo do grupo experimental de Hermeto Pascoal na quase metade dos anos 70 aos eternos 'Terra dos pássaros' de Toninho Horta e 'Imyra Tayra Ipy', passando pelo Grupo Um, que foi famosíssimo em sua época e ainda hoje é ponto central de referência para muitos músicos quando o assunto é música inovadora (com I verdadeiro e BEM maiúsculo) e tantos outros feitos, onde praticamente todas gravações são extremamente peculiares em qualidade e sonoridade, ainda hoje podemos afirmar que a quantidade de gravações onde podemos ver todo seu potencial a mostra é pequeno, apesar de já suficiente, se bem ouvido, em relação ao que poderia já ter sido registrado, especialmente ao vivo.

Tanto os Estados Unidos e a Europa sempre foram mais reconhecedores e apoiadores de seus talentos artísticos (apesar de lá também havarem muitos casos de não reconhecimentos que levam inclusive a decadências históricas – exemplo, Bud Powell), mesmo assim, não há como comparar a quantidade de oportunidades à época, as gravadoras, o público e todo o meio, em relação ao Brasil ; prestem atenção, estou falando das décadas de 60, 70, 80.

Nas épocas áureas de Tony, Max e Elvin haviam pessoas com visão muito mais sensível, graças talvez às suas formações e a todo um meio cultural/musical antes criado e sempre perpetuado para que para que eles pudessem ter acesso, oportunidade, condições de registrarem todas suas idéias e projetos e de sobreviverem muito bem desse meio, haja visto a enorme quantidade de lps, cds e vídeos que encontramos hoje em dia com esses 3. Se pesquisarmos 'apenas' pelas Blue Note, Impulse, Riverside, Black Saint e tantas outras, só aí já somamos mais de uma centena de registros desses mestres.

Porém, Édison Machado, tal qual Nazario, apesar de terem feito tanto, o que poderiam ter gravado e a quantidade de vezes que poderiam ter sido registrados ao vivo pela tv, em vídeo, por gravadoras ou o que quer que seja chega a ser ridículo perto dos 'gringos'. Porém, mesmo assim, o que fizeram, está aí, registrado. E aqueles que falam impronunciáveis asneiras sobre um ou sobre outro, que ouçam mais, muito mais. Hoje, as obras estão aí, de certa forma, bem acessíveis. Basta procurar.
O PROFESSOR / MANTENEDOR / RESGATADOR / DIVULGADOR

Zé Nazario, além de perpetuar e de desenvolver uma música muito própria e a música mais genuína brasileira na prática, ainda possui essa faceta de resgatador e divulgador dessa vastíssima cultura, o que é de vital importância para a nossa música e para a música mundial. Para o nosso país e para os artistas/músicos daqui isso tem extrema importância e para a cultura e boa música mundial, como o jazz, também. Os exemplos são inúmeros. Cito os que presenciei e me lembro, como as matérias que ele mesmo escreveu para a revista Modern Drummer Brasil durante uma determinada época, baseadas em sua vivência e pesquisa, sobre grandes bateristas tanto da música brasileira como do jazz. Isso vai na contramão da postura que muitos músicos e bateristas adotam,  onde nem sempre assumem ou citam todas suas influências e invariavelmente chegam a distorcer fatos e histórias e até a esconder que foram alunos desses ou daqueles e os caminhos que percorreram para chegarem aonde chegaram. Mas,claro, não são todos, graças a Deus. E, mesmo dentre os que citam e valorizam suas raízes, pouquíssimos se dispuseram a pesquisar e escrever matérias em revistas sobre as lendas de seus respectivos instrumentos.

Portanto, por volta de 1997, 98, Nazario publicou diversas matérias muito bem escritas, verdadeiras, elucidativas e embasadas sobre músicos como Art Blakey, Elvin Jones, Édison Machado, Hélcio Milito, Milton Banana, Dom Um Romão e ainda houve uma sobre a história da bateria brasileira também e uma matéria sobre maracatu e sua cultura. Nessa época nenhuma, absolutamente nenhuma publicação nacional sequer citava um mínimo sobre isso ou sequer mencionava tais nomes em algum momento. E vou além: quando Milton Banana, um verdadeiro símbolo da música brasileira faleceu, me lembro de uma minúscula nota em um jornal da capital paulista. E só. Me lembro do Zé faland isso no final de um show com muitas lágrimas nos olhos e quase sem consegur proferir uma palavra sequer, de tanta emoção.

Bom, sigamos em frente... durante uma especialíssima semana no Sesc Vila Mariana, em São Paulo, chamada 'Percussões do Brasil', em meio a belíssimas aulas com Nenê, Airto Moreira, Naná, Guello, das quais participei de quase todas, me lembro bem que nas aulas/workshops do Zé o tema desenvolvido foi exatamente essa história/evolução da bateria brasileira, onde ele mostrava gravações antológicas tocadas nos aparelhos do Sesc, tocando também na bateria com exemplos, demonstrando assim o estilo de cada lenda da bateria brasileira desde Luciano Perrone, desde o samba cruzado e todas as evoluções pelas quais a bateria brasileira passou e passa. E ainda falando, conversando e respondendo a todos, conduziu uma aula enorme em tempo e quantidade/qualidade de informação, emocionante, onde todos saíram satisfeitíssimos. Foram horas e horas de História da Bateria Brasileira.

E como essa houveram tantas outras, tantos workshops dos quais participei de alguns e tantos fatos que não posso deixar de me recordar, que atestam essa sua faceta de mantenedor e divulgador da bateria e boa música mundiais. Como por exemplo quando nossa aula particular acabava por enveredar em demonstrações maravilhosas dos mais variados estilos, como do Elvin Jones, onde o Zé sentava a sua antológica Gretsch branca, a qual passou tantos e tantos anos com ele (hoje de posse do baterista Alex Buck) e demonstrava com muita propriedade o estilo todo peculiar do Elvin, toda aquela sincopa densa, 'entortante', 'africanada', aquela exploração infinita das tercinas e todos seus grupos e sub-grupos de notas, aquele sotaque tão Elvin ao tocar com suas deslocadas tão intensas que podem dar uma rasteira em ouvintes menos atentos.

Édison Machado também era um vocabulário, um assunto a parte que o Zé mostrava com exatidão e paixão nas aulas. E muito mais! Não eram apenas aulas técnicas, mas sim muita troca de idéia e muito humanismo, com o Zé contando, com o aval de quem conheceu e muito, histórias sobre o grande Machado e sobre tantos outros ícones da música brasileira e mundial, como o Hermeto, como o Tenório Jr., como tantos e tantos... e tantos outros!

E todos que o conhecem sabem como ele faz questão de mencionar todos os grandes e não apenas mencionar,pois isso muitos músicos fazem. O Zé ia além e demonstrava total conhecimento sobre aquilo que todos esses músicos fizeram, com ele ou não e cantava (e canta) enormes solos com absurda exatidão e muita emoção, de maneira solta, como numa conversa informal. E solos não apenas de bateristas, mas de saxofonistas, trumpetistas, pianistas e diversos outros instrumentistas, dezenas de chorus inteiros não apenas de gravações clássicas, como de muitas outras, o que demonstra alguém que naturalmente mantém tudo isso em seu coração e memória porque ama com sinceridade e profundidade essa música, esse universo de sons, cores, sentimentos e muitos improvisos bem feitos. Ama, vivenciou, vivencia e carrega na alma e no espírito tudo isso, o que é muito natural.

O Zé também é capaz de conversar com você sobre músicos e bateristas que muito pouca gente cita, aliás muito pouca gente por aqui conhece, digo conhece a fundo (mesmo os mais falados não é todo mundo - que cita e fala sobre - que conhece mesmo, com exemplos – tal qual Elvin,onde quantos e quantos não vou conversar sobre 'o homem' e conhecem só as coisas mais 'manjadas' na vastíssima obra desse gigante da bateria moderna).

O Zé cita (e demonstra que ouviu MESMO) gente como Pete La Roca, Mickey Rooker, Archie Shepp, Jackie Mc Lean, Lee Morgan, Jaki Byard e dezenas de outros. Conhece gravações, temas incomuns, estruturas, curiosidades, estilos, solos e por aí vai.

Outra lembrança que tenho vem também trazer os anos de 1997, 1998 onde ele começou a resgatar temas da bossa jazz ou samba jazz (como queiram) em workshops que tinham uma relação com a Pearl, os quais tiveram início em um estúdio do bairro do Bexiga (participei de alguns) onde o time que depois viria a se chamar 'Os Cinco' começou a criar corpo, time esse que viria depois a se apresentar em alguns locais e ocasiões esporádicas e que acabou por ser a ''banda da casa'' em uma simpática, pequenina mas aconchegante sorveteria/restaurante no Ipiranga, São Paulo, chamada Mezzo Freddo e que se apresentou em outros eventos de maior porte.

O primeiro time trazia Itamar Collaço no baixo, Chiquinho D´Almeida no sax, Felipe Ávila na guitarra e em seguida vieram Victor no sax e Daniel Alcântara no trumpete, time esse que começou, a seguir, a se apresentar nessa citada casa no Ipiranga.

Então lhes pergunto (já que o capítulo trata aqui da faceta 'resgatador' do Zé) : quem no Brasil nessa época tocava ao vivo, e ainda com músicos desse calibre, temas tão esquecidos (e talvez alguns nunca tocados após suas épocas de existência e alguns nunca tocados ao vivo) e brasileiríssimos como  Ad Vinhas de Luiz Carlos Vinhas, Alegria de viver do Luiz Eça, Clichê, Estamos aí do Maurício Einhorn, Arroio, Aboio, Muito a vontade,  Noa noa, Amazonas, Ai se eu pudesse, Aquelas coisas todas, Rua da boa hora, A volta do pássaro ameríndio (tema que Zé gravou no antológico 'Imyra Tayra Ipy' de Taiguara), Primitivo, Riacho doce, Amanhã e tantas outras? Pois eu vi e ouvi esse grupo por dezenas de sextas a noite tocar, desenvolver sses temas e nos encantar com tanta música não apenas brasileira, pois eles também mandavam bala em temas como Ana Maria do W. Shorter, Bluesette do Toots Thielemans, Nefertiti do Shorter, On Green Dolphin Street, Do you hear the voices you left behind do McLaughlin, Juju de W. Shorter, Blue in green do Bill Evans e muito, muito mais!

Muito mais porque a formação foi se modificando, apesar das mesmas manterem bons períodos de duração.   Após a saída dos irmãos Alcântara vieram Chico de Oliveira ao trumpete e Maurício de Souza no sax, a seguir Vinicius Dorin no sax, tendo ainda Chiquinho Oliveira continuado ao trumpete por um bom tempo. Zerró Santos também veio ao contrabaixo após a saída de Itamar Collaço e a seguir um novo grupo, dessa vez com músicos do Conservatório de Pouso Alegre, Minas Gerais, onde o Zé lecionou por um bom período, como Nélio Porto ao piano, Fernando na guitarra e Adriano ao baixo mantiveram ainda essa chama acesa por alguns meses. Isso tudo durou cerca de 2 memoráveis anos e muitos músicos por ali passaram. Me lembro de uma memorável canja de Nenê ao piano e Zé na bateria e várias outras canjas, presenças e fatos memoráveis.

E quem escreveu também, no Brasil, matérias nessa época sobre os gigantes da bateria brasileira e do jazz? Se me responderem e mostrarem exemplos, retiro o que disse.

E quem além disso tudo ainda organizou um workshop, tocou junto e a seguir entrevistou Dom Um Romão, uma das maiores lendas da música e bateria brasileira, numa época onde tanta gente estava tão 'viciada' em técnicas cada vez mais mirabolantes e exibicionistas da bateria? Isso sem contar a eterna predileção pelos bateristas estrangeiros que ainda assola nosso país? O mais impressionante é que eu, que escrevi a matéria sobre esse workshop na Modern Drummer Brasil, mais tarde vim a saber que essa fora a primeira e única vez que o Dom Um realizara um workshop em seu próprio país!!! 

E por fim os workshops por São Paulo e pelo Brasil todo. Dentre tantos workshops da Pearl e outros, me lembro de ter participado de quase todos que o Zé realizou em São Paulo e em especial aquele que participei na íntegra, um curso coletivo intensivo que tinha uma certa sequeência evolutiva,no afastado bairro Vargem Grande Paulista, isso por volta de 1997/98. Isso tudo durou cerca de 1 ano. Todos os sábados eu viajava cerca de 45/ 50 kms e chegava as 10 da manhã e só ia embora por volta de 3, 4 da tarde. Nessas aulas coletivas o Zé passeava por métodos e exercícios dificílimos de bateria, prática coletiva e individual, demonstrações e muito mais, o que acabava num delicioso e informal churrasco após as aulas, isso já no meio/final de tarde naquela tão aconchegante casa toda de madeira, com todos kits do Zé, afastada do stress de São Paulo.

Pedro Mendes
5 de maio de 2008-05-05





'' Pedro Mendes é músico, pesquisador e professor em especial de djembê e música africana do oeste do continente. Colecionador, pesquisa também há muitos anos jazz, música brasileira, rock e música africana, dentre outras. '' e-mail: pmend44@hotmail.com

 
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